Sem dieta, sem detox: no caminho da liberdade alimentar. Parte I.
Por Enrico Torres
Meus gostos, minhas regras.
Olá, esse texto faz parte de um conjunto de 5 artigos que exploram como reaprender a arte de comer. Para um entendimento mais completo, eu sugiro a leitura de todos eles, preferencialmente na sequência do artigo I ao V. Espero que goste.
Nosso relacionamento com a comida se tornou desordenado e obsessivo. Pode ser fácil perder o controle da dieta em festas, datas comemorativas e até nesse momento de distanciamento social, mas aprender bons hábitos alimentares não é tão difícil.
Muitas de nossas ansiedades em relação às dietas tomam a forma de uma busca pelo alimento perfeito, aquele que promete curar todos os nossos males. Coma isso! Não coma isso! Ficamos obcecados com as propriedades de vários ingredientes: a proteína, os óleos ômega, as vitaminas. Como comemos - a forma que abordamos a comida - é o que realmente importa. Se vamos mudar nossa dieta, primeiro precisamos reaprender a arte de comer, que é uma questão de psicologia e nutrição. Temos que encontrar uma maneira de querer comer o que é bom para nós.
Nossos gostos parecem representar quem somos. Talvez seja por isso que agimos como se nossas principais atitudes em relação à alimentação fossem imutáveis, e mudar a forma de comer seria o mesmo que mudar a nossa personalidade. Fazemos tentativas frequentes - maiores ou menores - de mudar o que comemos, mas quase nenhum esforço para mudar o que sentimos pela comida: quão bem lidamos com a fome, quão fortemente somos apegados ao açúcar, quais as nossas emoções ao nos servirmos com uma porção pequena. Tentamos comer mais vegetais, mas nós não tentamos nos fazer gostar de comer vegetais, talvez porque haja uma convicção quase universal de que não é possível aprender novos gostos e abandonar velhos. No entanto, isso não poderia estar mais longe da verdade.
Todos os alimentos que você come regularmente são aqueles que você aprendeu a comer. Todo mundo começa a vida bebendo leite. Desde o primeiro ano de vida, os gostos humanos são surpreendentemente diversos. Mas não prestamos atenção suficiente para o fato de que comer não é algo que nascemos sabendo fazer instintivamente. É algo que aprendemos. Um adulto que amamenta um bebê está treinando-o sobre o sabor da comida.
No nível mais básico, temos que aprender o que é comida e o que é veneno. Temos que aprender a satisfazer nossa fome e também quando parar de comer. De todas as opções disponíveis para nós, onívoros, acabamos descobrindo quais alimentos são agradáveis, quais são adoráveis e quais são repugnantes. A partir dessas preferências, criamos nosso próprio padrão de alimentação, tão distinto quanto uma assinatura.
Na cultura alimentar de hoje, muitas pessoas parecem ter adquirido gostos homogêneos. Em 2010, dois cientistas especializados em "consumo alimentar" demonstraram que as preferências gustativas da infância revelaram uma nova maneira de pensar sobre as causas da obesidade. Eles observaram um “ciclo vicioso”: as empresas de alimentos aumentam os níveis de açúcar, gordura e sal, o que significa que as crianças aprendem a gostar delas e, assim, as empresas inventam cada vez mais esses alimentos “que contribuem para hábitos alimentares não saudáveis”.
A principal influência no paladar de uma criança acaba sendo não mais a dos pais, mas a de uma série de fabricantes de alimentos cujos produtos - apesar da ilusão de infinitas opções - proporcionam um sabor monótono, bem diferente dos sabores mais variados da culinária tradicional. O perigo de crescer cercado por intermináveis misturas industriais doces e salgadas não é porque somos inatamente incapazes de resistir a elas, mas que quanto mais freqüentemente as comemos, especialmente na infância, mais elas "treinam" as nossas células a esperar que todos os alimentos tenham esse mesmo sabor.
Depois de reconhecer o simples fato de que as preferências alimentares são aprendidas, muitas das maneiras pelas quais abordamos a alimentação começam a parecer um pouco estranhas. Para dar um pequeno exemplo, considere os pais que se esforçam ao máximo para "esconder" vegetais nas refeições das crianças. O brócolis é realmente tão terrível que deve ser escondido das mentes inocentes? Começa com a noção de que as crianças têm uma resistência inata aos vegetais e só os engolem de surpresa, transformados em mingau adocicado, em molho de macarrão, etc; eles nunca poderiam aprender a amar abobrinha por si só?
Achamos que estamos sendo espertos quando colocamos um pouco de beterraba em um bolo. Há! Te peguei, fiz você comer um tubérculo! Mas como a criança não tem consciência de que está consumindo beterraba, o principal resultado é consolidar seu gosto pelo bolo.
Muito mais inteligente seria ajudar as crianças no processo de aprendizado para se tornarem adultos que escolhem vegetais conscientemente, por vontade própria.